27/04/2017

Travessia Lapinha x Inhames

Em 2015 fiz a tradicional travessia Lapinha x Tabuleiro pela primeira vez, desde então as incontáveis rotas pelo sul do Espinhaço pipocavam em minha mente. A ideia era realizar um circuito pela região, integrando travessias locais para facilitar a logística de chegada e partida, além de explorar novos caminhos. Uma das opções mais concretas foi integrar três travessias na região originalmente denominada como Serra do Cipó, segundo o IBGE, passando por três pequenos povoados no sopé da serra: Lapinha, Extrema e Fechados.


A princípio a rota imaginada beirava os 150km, sendo praticamente impossível encaixá-la em algum feriado. Com um pouco de estudo sobre os caminhos da região (salve Google Maps!), foi possível atalhar diversos trechos das travessias que interligam em pares os três povoados. O projeto final ficou com cerca de 75km de extensão, que poderiam ser facilmente percorridos em 5 dias, num feriado como o Carnaval, por exemplo. Nossa base seria o povoado de Lapinha da Serra, o mais próximo de Belo Horizonte.


No Carnaval de 2017, em um grupo de 6 pessoas, fomos concretizar o projeto, nomeado como Circuito Espinhaço. Quase deu certo. Na parte final tivemos uma indisposição com o dono de uma fazenda no alto dos Inhames. Não conseguimos passar, então o que era circuito virou a travessia Lapinha x Inhames, via Extrema, a qual dou maiores detalhes a seguir:

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1º dia: Lapinha da Serra x Rio das Pedras


Saímos de Belo Horizonte no sábado de manhã, pegamos a Ana e o Leo no caminho e encontramos com a Marina e a Thais na saída para o Cipó. Deixamos o posto, nosso ponto de encontro, por volta das 9h rumo a Lapinha da Serra. A viagem foi relativamente tranquila, a estrada estava movimentada, mas sem retenções. Por volta das 11h chegamos ao povoado de Lapinha da Serra, nosso objetivo lá era encontrar alguém para nos levaraté o pé de manga e um lugar para deixar os carros.


Em 2016, quando fizemos a travessia Lapinha x Tabuleiro, combinamos o resgate em Tabuleiro com o Chico, marido da Cláudia que trabalha no restaurante Sempre Viva. Retornei ao restaurante pra ver se tinha sorte semelhante, mas a princípio a resposta foi negativa. Depois de muita conversa com o pessoal, a Cláudia falou que o marido dela poderia levar a gente até o pé de manga, onde normalmente ficam os carros de passeio na ida a Bicame ou ao Soberbo. A ideia inicial era desembarcar na porteira da Fazenda (a 7km de Lapinha), mas o pé de manga também era uma boa opção também, já que cortaríamos 5km de caminhada por um estradão movimentado e poeirento. Depois de combinar com o Zé Dias, que nos levaria em sua picape, faltou arrumar um lugar para os carros. O próprio pessoal do restaurante indicou que procurássemos o Seu Tarcísio, que tem um terreno próximo ao centro da Lapinha. Rodei mais um pouco pela Lapinha e encontrei o Seu Tarcísio, que permitiu que deixássemos os carros lá, sem cobrar nada por isso.


Tudo combinado, por volta de 12:30 saímos da Lapinha e quase 20 minutos mais tarde chegamos ao pé de manga. Combinamos com o Zé Dias um horário para o resgate na quarta-feira de cinzas e tratamos de andar, já que tínhamos cerca de 12km pela frente. Do nosso ponto de partida até a entrada da RPPN Ermo dos Gerais, são 1.700m por uma estradinha em condições precárias e quase sempre subindo, ora uma subidinha tranquila, ora uma mais acentuada.


Atalho e o céu nebuloso

13:29 entramos na RPPN e continuamos a caminhar, sempre pela antiga estradinha que fazia a ligação entre Santana do Riacho e Congonhas do Norte, a Transmante. Hoje em dia a estrada é interditada pelo IBAMA, somente os proprietários da RPPN e os funcionários tem permissão (e as chaves) para entrar na propriedade a bordo de um veículo motorizado. Falando na estrada, a primeira parte da travessia, até as proximidades de Extrema, pequeno povoado de Congonhas do Norte, é seguindo a Transamante, ou seja, um trecho de navegação bem tranquila.

No trecho inicial da RPPN, em alguns pontos atalhamos por trilhos laterais, evitando algumas curvas mais abertas. O atalho mais importante fica próximo a uma subida bem puxada, onde nem é possível ver pra onde a estrada tá indo, neste ponto pegamos um trilho estreito em direção a uma cerca de arame farpado. Demos a volta em um mourão de cerca, na beira de um barranco, e seguimos por uma trilha suja até as proximidades da “administração” da RPPN Ermo dos Gerais, onde chegamos às 14:40 depois de percorrer 4,9km.

A Dona Aparecida fica quase sempre por lá, ela frita pasteis e faz na hora um delicioso suco de abacaxi com limão capeta. Ficamos um bom tempo fazendo hora por lá e depois de duas rodadas de pasteis e sucos, retomamos a caminhada. Passamos direto pela trilha que dá acesso à Bicame, ressalto que atualmente não é possível descer com cargueiras até a cachoeira e o ataque (ida e volta) tem cerca de 9km. A Transamante segue subindo, agora com trechos mais íngremes e com muitas valas e erosões.

Depois de 7,2km, praticamente só subindo, começa uma descida muito acentuada dentro de um capão de mata. A primeira parte do declive é só cascalho, mas depois começam os calhaus de pedra. Um trecho muito pesado que exige cuidado, principalmente com os joelhos e tornozelos. No final da descida encontramos um caminhante que seguia no sentido contrário. Aparentemente exausto, ele disse que se perdeu (ou tomou o caminho errado) ao fazer uma rota que não entendi muito bem. O desespero era tamanho que ele queria se livrar de tudo que ele carregava, inclusive das perneiras. rs. Ao menos ele estava próximo da casinha da administração…

Camping próximo a um afluente do Rio das Pedras

Do final da descida até o restante do dia o relevo fica mais suave, alternando pequenas subidas e descidas. Depois de 8,8km de caminhada, às 17:04, chegamos ao Rio das Pedras, nosso segundo ponto de parada. Para minha surpresa, havia um grupo grande acampado lá por perto, era um pessoal que estava fazendo a travessia até o Peixe, por uma rota alternativa. O tempo não ajudava muito, meio nublado, mas mesmo assim tomamos um belo banho num remanso do Rio das Pedras.

Tínhamos mais algumas horas de sol, ou claridade, melhor dizendo. Embora fosse tentadora a ideia de ficar por lá no Rio das Pedras, adiantar o 1º dia facilitaria no encaminhamento do 2º. Depois de pouco tempo de descanso demos continuidade à caminhada e percorremos mais 3,4km até um afluente do Rio das Pedras com boa disponibilidade de água. Após o córrego havia uma área gramada e plana, boa para montar acampamento. Chegamos lá 18:45, bem no início da noite.

Durante a noite fizemos nossa merecida janta enquanto clarões atravessavam o céu nublado. Terminada a refeição começou a garoar, era nossa deixa para bater em retirada.

Neste dia caminhamos 12,3km.

2º dia: Afluente Rio das Pedras x Cachoeira Carapinas

Assim como terminou o dia anterior, o domingo amanheceu bem nublado. De cara tínhamos uma boa subida pela frente. A Ana e o Leo saíram na frente, mas logo pararam para arrumar os curativos do pé.Seguíamos pela Transamante, que neste trecho parecia menos uma estrada e mais uma trilha de mula. Bem no início da subida passamos por uma gigantesca ravina, bem profunda. À frente a única bifurcação da estrada, o caminho da direita leva pros lados de Tabuleiro enquanto o da esquerda segue para Congonhas do Norte.

O trecho inicial do segundo dia é praticamente só subida, são mais ou menos 6km assim. A princípio é uma subida puxada, que vai ficando mais tranquila com a distância. Com cerca de 1,7km de caminhada passamos por alguns afloramentos rochosos que tinham como companhia belas flores, de cor intensa. Depois de uma breve parada para fotos, caminhamos direto por mais 2,2km até pegar um belo atalho, que evitava uma bela barriga da estrada e uma forte subida. Este atalho passa na cabeceira daquele afluente do Rio das Pedras próximo ao nosso acampamento.

Campos rupestres

11:05 passamos pelas ruínas de uma ponte, ou coisa parecida. Havia um pouco de água no local, mas praticamente parada. Estávamos próximos a uma das nascentes do Rio das Pedras, a mais de 1.440m de elevação. Sempre pela Transamante, que agora margeava a borda leste do Espinhaço e passava pela área do Parque Estadual da Serra do Intendente. Depois de passar o ponto mais alto da travessia, com 1.467m, a estrada desce um pouco e torna a subir mais adiante. De longe estipulamos que esse morrote distante seria nossa parada de almoço. Após 9km, percorridos em 2h59, chegamos ao final da subida às 11:49.

Durante nossa parada de almoço o Sol fez até questão de aparecer, só porque não tinha sinal de sombra por perto. Do alto do morro tínhamos um belo visual da região. No fundo do vale, à oeste, tínhamos a visão de uma das nascentes do Ribeirão Soberbo, que forma a Cachoeira do Rubinho alguns quilômetros à jusante, por onde esperávamos passar no 4º dia de caminhada. No sentido nordeste, mesmo com muitas nuvens, era possível visualizar a sombra do Pico do Itambé, bem encoberto.

Após o almoço, a segunda parte da caminhada foi praticamente só descer tudo aquilo que a gente tinha subido e um pouco mais. Depois de passar uma porteira que tinha uma plaquinha próximo sinalizando a entrada no Parque Estadual da Serra do Intendente, pegamos uns trilhos de vaca à esquerda da Transamante, nosso segundo atalho. Interceptamos a estrada em um trecho bem puxado de descida, com muito cascalho, ao final do declive um breve trecho plano, onde passamos por um cruzeiro bem judiado.

Neste ponto a estrada segue em direção a um capão de mata. Bem no começo passamos por um sítio, que estava vazio. Como o trecho mais sombreado da travessia não poderia ser tranquilo, o relevo é bem acentuado, com um aclive e alguns declives. Após uma porteira, caminhamos mais um pouco e chegamos a uma bifurcação na Transamante. À direita a estradinha leva para Extrema e à esquerda temos nosso atalho em direção a Cachoeira Carapinas.

Nascentes do Ribeirão Soberbo

Paramos na bifurcação para esperar o Leo e a Ana chegarem e quando eles apareceram desabou um toró. A chuva já era esperada, já que no horizonte víamos água caindo com força. Tentamos esperar um pouco, mas também o local não oferecia muito abrigo, então seguimos mesmo assim. Para nossa sorte a chuva parou rapidamente, só foi mesmo o trabalho de colocar a capa na mochila e vestir o anoraque.

Seguimos por trilhas bem demarcadas em direção a Cachoeira Carapinas, que estava no fundo do vale. Passamos ao lado da casa da Dona Geralda, que estava vazia de gente, mas com alguns cachorros. Ao chegar á cachoeira nos deparamos com um grupo razoável terminando de fazer um churrasco por lá. Por essa eu não esperava. Mas a gente foi chegando e eles saindo. Como o tempo estava fechado e ameaçando chuva, optamos por montar as barracas primeiro. Dei uma volta pelo local procurando pelo melhor ponto de acampamento. Escolhi uma área na outra margem do Ribeirão Congonhas, próximo a trilha que pegaríamos no dia seguinte. A área era mais ou menos plana, mas gramada e com solo profundo o suficiente para colocar os espeques. Era 15:53 quando começamos a montar acampamento.

O tempo não melhorou em nada. Lavamos nossas roupas e logo começou uma garoa. Tomamos um banho de rio e começou a chover um pouco mais forte. O jeito foi ficar na barraca e esperar diminuir. Só conseguimos jantar mais tarde, por volta de umas 20:30, quando a chuva deu uma pequena trégua. Mesmo assim cozinhamos dentro da minúscula Arpenaz 2. Durante a noite percebemos que o rio ficou um pouco mais barulhento, quando fui buscar água para cozinhar me deparei com uma pequena cabeça d’água, com o Ribeirão Congonhas alguns centímetros mais alto e com uma correnteza mais forte. Só um aperitivo do que estava por vir.

Neste dia caminhamos 17,6km.

3º dia: Cachoeira Carapinas x Casa do Sr. Álvaro

No terceiro dia de caminhada perdemos a companhia do Leo e da Ana, por questões físicas. Devido a proximidade com Extrema e Congonhas do Norte, eles resolveram seguir pra lá e antecipar a volta a BH. Partimos, agora em 4, das margens do Ribeirão Congonhas às 8:51. Como nos dias anteriores, a primeira parte do trajeto era composta de uma longa subida.

Vale das nascentes do Rio Preto

A caminhada começou tranquila, uma subida leve por campos de altitude. Aos poucos víamos o Ribeirão Congonhas e as casinhas de Extrema ficando cada vez mais longe. A trilha vai se aproximando aos poucos de um afluente do ribeirão e logo temos que cruzá-lo. A travessia é tranquila, já que não há tanta água neste afluente. Paramos para nos refrescar um pouco e hidratar, embora não tivesse Sol, o calor de verão dava as caras. Parada providencial, já que após cruzar o córrego tínhamos uma bela subida pela frente.

A subida vai ficando cada vez mais íngreme, a trilha segue no sentido oeste, cruzando a Serra do Abreu e seguindo em direção a região originalmente conhecida como Serra do Cipó, segundo o IBGE. Abrindo um parêntesis no relato, o distrito de Serra do Cipó (Santana do Riacho-MG) está no sopé de uma serra localmente conhecida como da Vacaria, mas não há qualquer menção dela na carta topográfica do IBGE. Já a Serra do Cipó, segundo o próprio IBGE, está localizada mais ao norte do distrito homônimo, entre a região de Fechados e dos Inhames.

Voltando a caminhada, a subida pesada continua, deixamos os campos rupestres e de altitude para entrar em um pequeno capão de mata, com um microclima bem agradável. Rapidamente passamos pela mancha de mata e saímos próximo ao fim da subida. Mais alguns metros e um pequeno vale se abre a nossa frente. Trilhas surgem e vão para todos os lados, estamos num entroncamento. Este local é denominado, segundo o amigo Chico Trekking, como Campo Quadrado, onde está uma das nascentes do Rio Preto.

Depois de 3,3km subindo, tínhamos alguns minutos com o relevo ao nosso favor. Não tardou e chegamos na beira de uma acentuada descida, em direção ao vale das nascentes do Rio Preto. Com muitos degraus, o declive exigiu bastante do meu joelho, que não estava aguentando muitas coisas. Ainda assim consegui descer no melhor estilo homem de lata, pensando em outras coisas para amenizar a dor. Novamente em terreno com relevo amigável, continuamos por um campo de altitude. Cruzamos uma grande erosão, um afluente do ainda pequeno Rio Preto e chegamos a outra travessia. Segundo IBGE trata-se do Córrego do Soberbo, que alguns metros a jusante encontra as nascentes do Rio Preto.

Cascatas do Rio Preto

A subida agora é por uma estradinha precária, que dá acesso a algumas fazendas desta região. Adentramos a uma porteira e passamos a caminhar dentro de um cercadinho, em um trecho gramado da trilha. Rapidamente chegamos a casa da Dona Cacilda. Uma garoa começava a cair, nossa ideia era passar batido pela casa e almoçar mais pra frente, já que era quase meio-dia. Uns rapazes e duas crianças estavam na porta da casa, cumprimentamos e passamos, mas logo apareceu Dona Cacilda na porta nos convidando para um café. Por mais que nossa vontade fosse de continuar para adiantar a pernada, era difícil resistir ao convite.

Era uma casinha bem simples e cheia de gente, já que parte da família veio para passar o feriado com Dona Cacilda e Seu Batu, que normalmente ficam sozinhos por lá. Arrumaram uma cadeira para nós quatro na cozinha e ficamos lá batendo papo. Reparei na caneca de água no fogão a lenha e já esperava pelo café. Do cômodo ao lado veio aquele cheiro característico de café sendo moído na hora. E o melhor de tudo: café plantado no quintal de Dona Cacilda. Aí que era impossível ir embora sem uma boa prova do café!

Pensa num café bom. Pois foi. Serviu também para dar uma enganada na fome e mais energia pra caminhada. Contrariando os pedidos de nossa anfitriã, continuamos nossa jornada serra acima. Botamos os pés pra fora, caminhamos alguns metros e começou a garoar novamente, talvez castigo por termos abandonado a tremenda hospitalidade de Dona Cacilda e Seu Batu.

A trilha segue subindo por campos rupestres, margeando um capão de mata. Logo começamos a descer, cruzamos uma parte mais estreita da mata galeria e continuamos do outro lado, também margeando o pequeno córrego. Assim que a subida acabou, deixamos pra trás as nascentes do Rio Preto e passamos a caminhada no pequeno vale das nascentes do Córrego dos Pilões. Cruzamos o córrego duas vezes, neste meio tempo entramos na fazenda dos Pinhões da Serra e passamos próximo a casinha da sede. Na segunda travessia seguimos sentido norte (Rio Preto), ignorando uma trilha que seguia no sentido oeste, em direção a casa do Sr. Álvaro.

Uma chuva fina e interminável nos perseguia desde a saída da casa de Dona Cacilda. Seguimos margeando o Córrego dos Pilões por alguns quilômetros, até que entramos à esquerda numa bifurcação que leva às Cascatas do Rio Preto. A fome já estava batendo, como não tínhamos lugar para nos abrigar da chuva, o jeito foi sentar em alguma pedra menos desconfortável e comer. Por volta das 14:45 fizemos nosso lanche da tarde.

Casa do Sr. Álvaro, nosso hotel


A ideia inicial era seguir até o Rio Preto, que estava a alguns minutos dali, e acampar próximo a margem. Como a chuva não dava trégua, podemos dizer que esta ida ao Rio Preto foi praticamente uma caminhada perdida, já que poderíamos ter cortado caminho e descido direto para o Sr. Álvaro. Para não perder a viagem, deixei a mochila onde estávamos e dei uma corrida até as cascatas, enquanto as meninas seguiam na trilha de volta para o Sr. Álvaro. Sem dúvida as cascatas do Rio Preto seriam uma ótima pedida em um dia ensolarado, já que são formadas inúmeras piscinas naturais ao longo da queda, sem contar o remanso que precede à cascata. Depois de algumas fotos, peguei a mochila e segui o atalho que havia traçado no Wikiloc. Por ele interceptaríamos a trilha batida que desce para o Seu Álvaro sem precisar retornar pelo caminho que havíamos feito.

Posso dizer que foi um ótimo atalho, de fácil navegação e com trilhas de gado demarcadas em boa parte dele. Com tranquilidade interceptamos a trilha batida e, sob chuva, descemos um patamar da Serra do Cipó, entrando no vale do Córrego Cachoeira. Cruzamos o córrego às 16:19 e seis minutos mais tardes chegamos ao rancho. O local estava todo fechado, com cara de abandonado, mas ainda assim era como se fosse um hotel. Tìnhamos uma área coberta para escapar da chuva e colocar as coisas pra secar em um varal adaptado; mesa para preparar a janta; bancos para sentar e uma parede para apoiar as costas. Tudo que a gente precisava depois de uma tarde debaixo da chuva.

Neste dia caminhamos 18,3km.

4º dia: Sr. Álvaro x Inhames

Um dia que começou com o tempo querendo abrir e sem subidas, tudo para ser um ótimo dia de caminhada. Pela manhã dei uma ida às ruínas de uma capelinha próxima ao rancho do Sr. Álvaro, local bem interessante. Na volta ao camping, muitas coisas secaram ou quase secaram no varal. Desta vez saímos um pouco mais cedo, às 8:43.

Começamos fazendo o sentido inverso da trilha do dia anterior, seguindo para leste em direção à serra, mantendo sempre à direita nas bifurcações. Neste ponto inicial, devido a proximidade do rancho, há muitas trilha de gado, que correm paralelas em diversas direções. Alguns minutos após cruzar o Córrego Cachoeira, cruzamos um pequeno afluente dele, dando uma guinada para sudeste, pouco depois outro afluente e apontamos para o sul, o rumo desejado.

Ruínas da "igrejinha" do Sr. Álvaro

Esta parte do trajeto integra a consolidada travessia Lapinha x Fechados, de fácil navegação. Basta seguir em direção ao sul (ou ao norte, se fizer no sentido contrário). Trilhos de gado se desprendem do eixo principal e partem nas mais variadas direções, mas é difícil sair do rumo certo. As trilhas principais (sim, existem algumas) são bem batidas, optei por seguir pelo trilho mais próximo da serra à esquerda, que na teoria seria mais tranquilo para cruzar as nascentes e charcos. Entre campos de altitude e manchas de cerrado, fomos acompanhando o sentido do Córrego Cachoeira, sempre a nossa esquerda.

Depois de 3,3km, com relevo suave, praticamente plano, passamos por uma tronqueira. Ao lado dela uma placa informando que a entrada no local é proibida. Antes de fazer a travessia tinha me informado sobre alguns problemas que estavam ocorrendo na passagem pela fazenda do Dante, no topo da cachoeira dos Inhames. Um amigo próximo, que fez a rota Lapinha x Fechados recentemente, detalhou que foi “obrigado” a pernoitar na sede da fazenda, já que pelo horário o Dante não permitiu a passagem do seu grupo. No dia seguinte eles conseguiram continuar a caminhada, mas tiveram essa pequena indisposição.

Ignoramos a placa e seguimos o roteiro combinado, depois de 3km chegamos a sede da fazenda. Por uma pinguela cruzamos um afluente do Córrego Cachoeira e entramos pela porteira, que já estava aberta. Até pensei em contornar a sede por umas trilhas de vaca que passam atrás de um afloramento rochoso, mas optei por seguir a trilha batida. Algumas dezenas de metros abaixo, no terreno, pequenas casinhas de pedras e algumas pessoas. Como estavam longe, seguimos nosso caminho, elas nem pareciam se importar com a nossa presença. Adiante cruzamos uma tronqueira, quando estava para fechá-la, alguém começou a gritar de longe. Na primeira não deu pra ouvir bem, então continuamos; na segunda ouvimos: “não pode passar aí não!”. Um senhor de idade saía às pressas em nossa direção, meio capengando e com uma espécie de bengala na mão. Fui de encontro ao senhor e tentei argumentar que estávamos de passagem para Lapinha. Ele foi irredutível, disse que não poderíamos passar e que o caminho para Lapinha é por baixo, via Inhames. Perguntei novamente se não teria chance, ele disse que não, que se hoje era 4, amanhã era 10 e assim vai. Perguntei se não poderíamos passar por cima da serra, ele disse que não, falou que teríamos que voltar até o rancho do Sr. Álvaro e descer para os Inhames de lá. Sabendo da existência de um atalho da fazenda dele até os Inhames, perguntei se não poderíamos usá-lo, para evitar dar uma volta maior. Ele disse que a trilha era propriedade particular e também não permitiu nossa passagem. Enquanto tentávamos um diálogo, um rapaz segurava um cachorro que latia sem parar. A impressão, claramente, era que ele queria nos intimidar antes de nos mandar embora. Nessa hora eu não vi, mas as meninas que estavam um pouco distante disseram que ele segurava uma arma em uma das mãos.

Sem sucesso na argumentação, o jeito era voltar. O velho e um rapaz foram nos escoltando, à distância. Numa das sombras, a algumas centenas de metros da porteira da propriedade, paramos para colocar as ideias em ordem diante do acontecido. Não se passou nem um minuto e começamos a ouvir tiros. Foram uns quatro disparos, nos expulsando como se fôssemos uma ameaça. Os 6,5km de volta até o Sr. Álvaro foram duros. Não tínhamos saída se não voltar.

Vale do córrego Cachoeira

Durante o regresso o tempo que parecia abrir fechou de vez. A chuva parecida iminente. Topamos com alguns gados pelo caminho e um boi ameaçou correr atrás da gente. Era só o que faltava! Ser expulso aos tiros e ainda levar chifrada de marruaz…

Quando passávamos pela mancha de cerrado, a chuva desabou. Caiu como uma tempestade, em minutos molhamos mais que na chuva do dia anterior, que havia durado toda a tarde. Raios, trovões, muita água… Ensopados chegamos ao rancho do Sr. Álvaro mais uma vez. No paredão da Serra do Cipó, dezenas de cachoeiras se formaram. Espetáculo. Choveu com força, mais de uma hora de chuva. Era água que não acabava mais. Na varanda do Sr. Álvaro tentávamos secar as roupas e escapar do frio.

Chegamos por volta das 13:00 no rancho, almoçamos e esperamos a chuva. 15:20 e a chuva ainda caía, só que mais mansa. Como ainda tínhamos mais alguns quilômetros de caminhada até Inhames, sem saber exatamente qual o caminho e a distância, fomos mesmo assim. Fomos em direção às ruínas da capela, uma trilha batida seguia no sentido norte e outra pro sul. Optamos pela primeira, já que, aparentemente, ela ia em direção a serra, que teríamos que cruzar. Alguns minutos andando e a trilha batida desapareceu, restando apenas trilhos de gado. Uma trilha bem demarcada descia o vale, em direção ao rancho, não era o que queríamos. Então lembrei das imagens por satélite, de uma trilha que saía da casa do Sr. Álvaro sentido sul e tomava o rumo da serra. Então retornamos às ruínas e seguimos pela trilha batida sentido sul. O caminho seguia a mesma direção do Córrego Cachoeira, caminhávamos por campos de altitude encharcados por conta da chuva, que não tinha parado.

Depois de explorar um trilho de vaca que saía à direita, retornamos ao trilho principal. Cruzamos um pequeno afluente do Córrego Cachoeira, como já estávamos encharcados, nem pensamos em tirar as botas para entrar na água. Tomamos à direita numa bifurcação e começamos uma subida, que ia ficando cada vez mais puxada. A água descida pelo caminho como um rio, era difícil distinguir o que era trilha e o que era passagem de água. Em meio a uma espécie de cerrado a subida era bem acentuada, então seguíamos lentamente, sob uma forte chuva e dentro de uma espessa neblina. Não tínhamos visual de nada, o jeito era torcer pra ser o caminho certo.

Após uma subida puxada com cerca de 2km de extensão, o relevo fica planos por instantes e logo começa uma descida bem desgastante. No começo do declive havia um cruzeiro, de lá conseguimos observar um pouco do que nos esperava lá embaixo, sem saber precisar exatamente onde ficava os Inhames.

A descida foi extenuante. Em 2,5km saímos de uma altitude de 1.207m para chegar a 792m de elevação no final da descida, mais de 400 metros de desnível. Gastamos cerca de 1h30 para descer a serra. Saímos em uma estradinha vicinal, sem qualquer movimento. Na primeira bifurcação decidimos seguir pela esquerna, numa espécie de trilha, que parecer ser o caminho mais curto até os Inhames (e realmente foi). Por uma estradinha de fazenda continuamos a caminhada debaixo de chuva, com direito a pular cerca e passar por um trecho cheio de arbustos com espinho. Nos lusco-fusco do fim da tarde avistamos a belíssima cachoeira dos Inhames, imponente e completamente cheia de água. Em condições normais (sem tempestade no alto da serra) é uma queda d’água bem discreta, que chama atenção somente pela altura.

18:50 chegamos à sede da fazenda cachoeira, fomos em direção a casa, que estava com a luz acesa, mas somente o cachorro estava por lá. Sem conseguir ajuda seguimos pelo caminho mais algumas centenas de metros, até que passamos próximo a um casarão, com vários carros estacionados. Estávamos em busca de alguém que pudesse nos abrigar ou nos levar à Lapinha, mas a pessoa que nos atendeu só falou para seguirmos até o centro do povado e procurar por Arnaldo ou Divã. Certamente o sujeito estava mancomunado com o Dante, já que perguntou se estávamos vindo de lá.

O que era pra ser o bar do Arnaldo estava fechado, chegamos ao Divã e, novamente, ninguém pra nos ajudar, só falaram para que procurássemos a Dona Beta. Cada vez que pedíamos algum auxílio, nossa resposta era: “caminhem mais um pouco, ali na frente podem lhes ajudar”. Nesta saga rapidamente estaríamos em Santana do Riacho e não precisaríamos mais de ajuda. rs.

Chegamos ao sítio da Dona Beta, ela custou nos atender, mas quando apareceu tivemos a certeza de que conseguiríamos um abrigo. Ela tinha aquele fenótipo de vó e, com certeza, não nos deixaria ao relento. Depois que solicitamos auxílio, ela teve uma breve reunião com o companheiro e liberou a nossa entrada. Dona Beta aluga o sítio para visitantes que desejam passar uma temporada por lá ou fazer uma festa, pra nossa sorte o último grupo foi embora ainda na terça de Carnaval.


Neste dia caminhamos 24km.

Cachoeiras descendo pela Serra do Cipó

Depois de uma série desventuras, enfim um abrigo, com direito a cama e banho quente. Providencial! Ainda na noite de terça deixamos meio que combinado com o Arnaldo, companheiro dela, uma carona até Lapinha da Serra. Na manhã seguinte fizemos o desjejum e fomos para o bar do Arnaldo, que na verdade é da Dona Beta. Por volta das 9h ele apareceu por lá e embarcamos para Lapinha em um pequeno caminhão. A Giu e eu fomos na boleia, conversando com o Arnaldo, que nos deu valiosas informações sobre a região. Na carroceria foram a Marina e a Thaís, aproveitando um pouco da brisa e desviando das árvores com espinhos. Foram cerca de 2h de viagem para cumprir os 45km de terra entre os Inhames e Lapinha. A pernoite mais o transporte saiu em 60$ pra cada (éramos 4), um preço bem justo se considerarmos nossa situação.

Na Lapinha almoçamos no restaurante Sempre Viva, comida caseira e bem gostosa, à vontade e com direito a um pedaço de carna por 16$. Depois de forrar o estômago, pegamos os carros no Seu Tarcísio e partimos pra BH sem mais delongas, onde chegamos ainda tarde.

DICAS E INFOS:

Ainda que tenhamos percorrido uma grande distância, esta é uma travessia relativamente tranquila para montanhistas experientes, com boa disponibilidade de água, boas áreas para acampamento e diversos atrativos. Se fosse possível completar o circuito pretendido, não teríamos qualquer problema com a logística.

Considerando a indisposição que tivemos na passagem pela fazenda do Dante, se você não for amigo dele, evite passar pelo local. Existem trilhas possíveis que não passam por lá, seja a que vai pelo alto da serra, saindo das proximidades da casa de Dona Cacilda; ou a que desce para os Inhames e volta a subir a serra próximo a localidade de São José da Cachoeira. Explore bem ferramentas como Google Maps ou Earth, existem muitas possibilidades de travessia nesta região do Espinhaço.

COMO CHEGAR:

De carro, desde Belo Horizonte, siga em direção a Serra do Cipó. Depois da ponte estreita sobre o Rio Cipó, entre à esquerda na segunda rotatória, seguindo para Santana do Riacho e depois para Lapinha da Serra, neste último trecho são 13km de terra em condições medianas.

Para os Inhames siga para Santana do Pirapama, seja por Sete Lagoas ou Lagoa Santa-Baldim, na localicade de Tibuna entre à direita e siga pela estrada de terra até o povoado, são cerca de 160km desde BH.

Fique atento, como é uma travessia, começo e fim são em locais diferentes. Se a opção for transporte coletivo, siga para Santana do Riacho pela Viação Saritur e de lá pegue uma carona ou táxi até a Lapinha. Já dos Inhames há um ônibus que faz a ligação com Santana de Pirapama, aparentemente sai todos os dias pela manhã. De Pirapama até BH existe linha convencional da Viação Saritur.

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