Mais uns dias livres em época de pandemia. Resultado: mais um circuito “criado” no Espinhaço. Desta vez um pouco mais criativo, pois envolvia atrativos pouco populares e/ou divulgados e rotas nada usuais para a maior parte dos montanhistas da região.
Depois de ficar debruçado algumas horas sobre as imagens de satélite e cartas topográficas, partimos rumo à zona rural do Gouveia, para localidade denominada Prata, as margens do rio Paraúna, a pouco mais de 240km de BH.
LOGÍSTICA:
Como se trata de um circuito a logística se torna mais simples, podendo ser realizada em veículo próprio. Tendo como referência Belo Horizonte, o ponto inicial dista aprox. 245km da capital. O acesso é pelas rodovias BR-040 (sentido Brasília até a entrada para Cordisburgo); MG-231 e LMG-754 (até Curvelo); e BR-259 (até a entrada para a localidade de Contagem). A entrada para o rio Paraúna fica próxima das torres eólicas da UEE Morro Camilinho. O trecho final, da rodovia até a ponte, é por uma estrada de terra em boas condições, com aprox. 12km.
Caso
queira fazer a logística em transporte coletivo, a opção é tomar
o ônibus da viação Pássaro Verde (linha BH x Diamantina) e descer
em frente a UEE Morro Camilinho (comprar seção BH x Trevo do
Camilinho). Neste caso a caminhada aumenta 12km (24 no total,
contabilizando ida e volta).
ATENTE-SE: Este circuito foi feito durante a pandemia, portanto, para evitar o contato com as comunidades do interior, iniciei o trajeto em uma região isolada do Espinhaço. Hoje em dia, como não há mais restrições, uma opção é iniciar o trajeto no vilarejo de Fechado, que fica mais próximo da capital Belo Horizonte.
DIA 1: PARAÚNA X VALE DA VACA MORTA
Depois de sair de BH no fim da madrugada e deixar a moto dissumulada em uma estradinha abandonada logo após a ponte do Rio Paraúna, às 08h56 demos início à caminhada. Por sinal, já iniciamos em aclive, seguindo um caminho que mais parece ser utilizado por trilheiros de moto. Após um aclive moderado, a trilha se estabiliza e logo passamod pelo córrego da Picada, primeiro ponto de água.
Rapidamente chegamos ao acesso do primeiro atrativo do circuito: a cachoeira da Catedral, formada pela Córrego do Bicho. Deixamos o rumo sul para seguir por trilhas sujas que seguem para nordeste, em direção ao córrego. Ao que parece, trata-se de uma área adjacente a um antigo curral, que era utilizada como pastagem, mas os animais não estão mais na região, tornando o acesso ao córrego “chato”, para dizer o mínimo.
Seguimos por uma capoeira, aproveitando os rastros de bichos e pessoas que haviam passado mais recentemente pelo local. As moitas de capim chegam na altura do joelho e em alguns pontos o pisoteio desaparece. O local é bastante confuso e sujo, então não há muita cerimônia, é seguir em direção ao leito do rio pelo caminho menos complicado. Já nas proximidades do Bicho a vegetação está mais baixa e a aproximação final é feita pelas rochas. Ao chegar no leito, já saímos em frente a um grande poço de uma pequena queda d’água, porém não nos banhamos nela.
Para chegar à cachoeira da Catedral basta descer pelo leito do córrego. Na ida dei a volta, descendo por uma grota à direita da cachoeira (direita de quem vem por cima). No entanto, ao chegar no poço, facilmente se percebe que o acesso mais fácil é descer por um leito seco à esquerda do topo da cachoeira. Mais fácil e muito mais rápido!
A cachoeira da Catedral tem esse nome, acredito eu, em virtude de uma queda d’água secundária, no interior de uma pequena gruta. As águas são um pouco mais claras do que o normal do Espinhaço e o poço ótimo para banho. A dificuldade de acesso torna o local simplesmente um achado!
Como havia muito chão pela frente, ficamos cerca de 1 hora no local e retomamos a caminhada. À exceção da subida da cachoeira, que foi pelo leito seco, conforme descrevi anteriormente, retornamos até a trilha principal pelo mesmo trajeto, aproveitando o pisoteio da ida.
De volta ao caminho principal, a trilha segue agora em ligeiro aclive, acompanhando o Córrego do Bicho. Um par de quilômetros depois, deixamos o trilho principal novamente, tomando um caminho discreto, à esquerda, em direção ao córrego. Já nas proximidades do córrego margeando um paredão rochoso para chegar a mais uma sequência de quedas e poços do Bicho. Outro grande atrativo desta rota.
Depois de 7,7km e dois atrativos de peso, era hora de seguir viagem, pois até o ponto estimado de acampamento ainda havia uma boa pernada. Retornamos pela trilha discreta até a principal, iniciando a subida de um patamar da Serra do Cipó. Trata-se de uma longa subida, que começa mais pesada, porém depois alivia, revelando-nos grandes panoramas da região. O céu limpo nos presenteia com uma bela vista das serranias do Alto Jequitinhonha, especialmente o Pico do Itambé, que aparece solitário e imponente quando dirigimos nosso olhar para nordeste.
Por um trilho único e bem demarcado vamos avançando entre campos, afloramentos rochosos e um cerradinho. Às 16h23 batemos no ponto culminante de toda a travessia, no alto da Serra do Cipó, onde o GPS indicava 1.419m de elevação. Um pouco após o ponto mais elevado, deixamos a trilha principal em favor de uma que desce no rumo sudoeste, em direção ao vale da Vaca Morta. Passamos pelas cabeceiras da cachoeira de mesmo nome e descemos outro pequeno degrau da serra. Às 17h09, em uma tarde dourada de maio, chegamos à singela queda d’água da Vaca Morta, nosso local de acampamento.
Banhamos nos pocinhos formados após a queda e jantamos em seguida, tirando o resto do dia e da noite para descanso. Neste dia caminhamos 17,2km.
DIA 2: VACA MORTA X MALHADA
Saímos do Vale da Vaca Morta às 09h11, seguindo pelas trilhas para oeste, afastando-nos do curso d’água. A caminha segue em declive, cruzando dois afluentes do Córrego da Passagem antes de descer pelos afloramentos rochosos até a casa do Valtinho. Após a descida mais forte, em vez de irmos em direção à casa, fomos margeando a cerca à direita, reencontrando um trilho consolidado mais abaixo e logo atravessando o Ribeirão Fechados.
A caminhada segue pela margem esquerda do Ribeirão Fechados, seguindo para oeste pela trilha principal que leva ao vilarejo homônimo. Mais abaixo, após cruzar uma drenagem cerca, tomamos à direita em um acesso discreto que leva ao leito do ribeirão, onde há a cachoeira do cânion. Depois de um breve banho, retornamos à trilha principal e continuamos descendo até o acesso às cachoeiras principais de Fechados. Fomos direto para a cachoeira do Ofurô, que fica à direita, onde chegamos às 11h25 depois de percorridos 7,3km. Em seguida descendo para a cachoeira dos Horizontes, uma das mais conhecidas de Fechados, onde permanecemos até as 14h40.
Passado mais da metade do dia, havíamos percorrido somente a metade do trajeto e ainda tínhamos uma longa subida antes de chegar ao local previsto para acampamento. Não tinha para onde fugir, teríamos que enfrentar o sol forte e aquela a tarde quente dos princípios de maio. Retornamos, portanto, pelo mesmo caminho da ida, seguindo pela trilha principal até a casa do Chiquinho, que fica em um platô logo acima ao das cachoeiras.
Após passarmos em frente a casa de Chiquinho, tomamos uma trilha à esquerda, cruzando um reguinho d’água antes de atravessar novamente o Ribeirão dos Fechados. A subida agora passar ser pelos campos rupestres, com amplos visuais da borda oeste do Espinhaço. Logo no início da subida há uma bifurcação, onde seguimos pela direita. Apesar da escolha, é preciso dizer que ambas as trilhas se encontram alguns quilômetros a frente, no entanto a trilha da direita parecia ser mais consolidada, o que até é compreensível, haja vista que a mesma leva até um rancho localizado 1km acima da bifurcação.
Depois de vencermos a subida pelos afloramentos rochosos, adentramos em um trecho de relevo mais suave, coberto por um cerrado, com várias espécies arbustivas e arbóreas de pequeno porte. Passamos ao lado de um rancho, onde um senhorzinho gentilmente nos convidou para tomar um café. Considerando o horário apertado, recusamos educadamente e continuamos a caminhada, que a esta altura seguia o rumo noroeste.
Pouco depois do rancho há uma outra bifurcação importante, onde seguimos pela esquerda. Inicia-se uma suave descida rumo ao Córrego da Malhada. O cerrado dá lugar ao campo rupestre e logo reencontramos o outro trajeto daquela bifurcação que passamos no início da subida. Sem maiores dificuldades cruzamos o Córrego da Malhada, que possui uma baixa vazão d’água e esticamos até um rancho abandonado que há logo após, onde armamos acampamento. Chegamos ao ponto final às 17h04.
Depois de montada a barraca, retornamos ao córrego para banhar e ceiamos nos arredores da casinha. A posição estratégica daquele rancho abandonado permitia um belíssimo visual da borda oeste do Espinhaço. A noite caiu e no horizonte se destacava as luzes daquela cidade que acreditei se tratar de Curvelo, distante a mais de 50km dali, em linha reta. Neste dia caminhamos 15,2km.
DIA 3: MALHADA X PARAÚNA
Amanheceu sem nuvens no Córrego da Malhada, prometendo mais um dia de sol forte no Espinhaço. Às 08h38 deixamos o rancho abandonado, abastecemos as garrafinhas e fomos margeando a mancha de cerrado. A caminhada segue para o norte, com alguns desvios para nordeste, afastando-se da borda do Espinhaço.
Após deixarmos as cabeceiras do Córrego da Malhada para trás, caminhamos margeando um pequeno afluente do Córrego Caiçara, o qual cruzamos mais adiante. Passamos por uma água cristalina e logo deixamos a trilha principal para subir à direita, rumo a um patamar superior da Serra do Cipó. Interceptamos uma trilha discreta mais acima e, depois de vencido o aclive, vamos descendo rumo ao Córrego Caiçara. Logo no início da descida interceptamos uma trilha mais consolidada que vem do sul.
Um declive moderado leva ao fundo do vale, onde está o Córrego Caiçara. Porém, antes de finalizar a descida, tomamos à esquerda em uma bifurcação, seguindo pela trilha mais discreta. Após a travessia do Córrego Caiçara, em vez de continuarmos no rumo norte, seguimos acompanhando o curso d’água, para oeste. Próximo ao degrau da serra uma trilha discreta dá uma guinada para o norte, faz uma curva em “U” adiante e retorna em direção ao córrego. Passamos próximo a um rancho abandonado e uma trilha discreta leva a um belo poço, onde deságuam as águas de uma cachoeira sem nome, formada pelo Córrego Caiçara.
Chegamos à cachoeira às 10h58, depois de percorridos 5,2km e ficamos no local até as 12h27. Retornamos ao alto da cachoeira pela mesma trilha da ida. Na parte superior da serra fizemos outra curva em “U” e retomamos o rumo norte, seguindo por um aclive entre campos rupestres e cerrado. Ao final da subida vamos nos aproximando de um rancho, ocasião em que surgem diversos trilhos paralelos e perpendiculares, tornando a trilha suja e confusa. Vamos nos deslocando para a direita, com o objetivo de andar nos caminhos mais limpos e logo desembocanos no fim de uma estrada, que para a gente era o início.
Caminhamos em nível até uma capelinha localizada no alto do morro. A nossa frente descortinava o vale do Paraúna, denotando que já nos aproximávamos do final do circuito. Dali em diante o desafio seria apenas o sol, que castigava apesar da proximidade do inverno.
Descemos pelo vale da Lavrinha, seguindo por uma estrada precária, aparentemente abandonada. Passamos por alguns trechos interessantes, possivelmente onde há extração de cristais de quartzo. Em um descampado deixamos a estradinha em favor de uma trilha que segue na outra margem do Córrego da Lavrinha. Em ambas as margens do córrego chamava a atenção aquilo que seriam duas cabeceiras de uma antiga ponte. Apesar da estrutura ainda persistir, a travessia é pulando as pedras do leito.
Uma trilha segue margeando o córrego e intercepta a estradinha mais a frente. A estradinha, na verdade, se resume a dois trilhos paralelos cercados por um capim da altura do joelho. Aos poucos o caminho vai ficando mais limpo e o fim se torna inevitável. Para fechar com chave de ouro, sinto uma picada forte na cintura e, quando olho, me deparo com um imenso carrapato, do tamanho de uma unha. Cabe ressaltar que carrapatos são comuns bem comuns nessa região, porém me surpreendeu o tamanho da criatura. Depois de percorrermos 16km, às 16h14 finalizamos nossa jornada, após três dias de caminhada. Antes de encarar as 3h30 de viagem, mais ou menos, até BH, desenrolei um banho em um afluente de águas cristalinas do rio Paraúna, onde aproveitei para verificar se não levaria nenhum carrapato para casa.
OBSERVAÇÕES:
-
Trilha de dificuldade moderada, com aclives e declives acentuados,
trechos de cascalho solto, piso bastante irregular e trilha suja ou
sem trilha (somente acesso à cachoeira da Catedral). Recomendado
para pessoas com experiência em navegação e no transporte de
cargueiras;
- Essa trilha não carece de qualquer
autorização, embora cruze diversas áreas particulares;
- LEVE SEU LIXO DE VOLTA, EVITE FAZER FOGO ou ABRIR ÁREAS DE ACAMPAMENTO, FECHE AS TRONQUEIRAS/PORTEIRAS QUE PASSAR. Seja gentil e cortês com os moradores locais;
-
Há boa distribuição de água pelo caminho, não sendo necessário
mais de 1,5L de autonomia por pessoa;
- Sinal de telefone
(VIVO) em várias partes do trajeto, nos pontos mais altos e sem
obstáculos;
- Rota bem exposta ao tempo, chapéu e
protetor solar são itens essenciais;
-
Não há qualquer tipo de infraestrutura ao longo da rota, a exceção
do Rancho do Valtinho, que conta com infraestrutura para receber
visitantes;
-
Rotas de escape: saída para Cemitério do Peixe no 1º dia, a partir
da chegada ao córrego do Bicho. Saída para Fechados no 2º dia e
início do 3º. Saída para a região de Caiçara no 3º dia. Note
que são localidades pequenas, que carecem de muitos tipos de
serviços ou mesmo não o possuem.
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