15/05/2017

Estrada Real: Caminho dos Diamantes (Diamantina x Ouro Preto)

Em um abril recheado de feriados, embarquei numa aventura solo pelo Caminho dos Diamantes da Estrada Real, saindo de Diamantina e indo em direção a Ouro Preto. A história deste trecho está ligada com a exploração de diamante e ouro do Brasil Colonial, que avançou pelo sertão mineiro e ganhou as alturas da Serra do Espinhaço.

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1º: Diamantina x Milho Verde


Saí de BH na quinta-feira da Semana Santa, sem muita pressa, com destino a Diamantina. Depois de algum tempo sem fazer uma grande viagem sozinho e de moto, foi até complicado prender toda a bagagem. Como a ideia era acampar, mas não em qualquer lugar, levei barraca, isolante térmico e saco de dormir, deixando pra trás panelas e fogareiro. A viagem correu tranquila, com as rodovias sem muito movimento. Antes de chegar a Diamantina parei na Toca da Onça, um bar/restaurante na beira da estrada, PF a 15 pratas com o refri.

Vídeo completo


De bucho cheio cheguei a Diamantina e sem mais delongas dei início ao Caminho dos Diamantes, saindo do Mercado Municipal às 14:18. Os trechos urbanos são sempre de navegação complicada na Estrada Real, e em Diamantina não é diferente. Mesmo com o GPS e observando os marcos alguns pontos são confusos; mas nada que atrapalhasse minha saída. Rapidamente passei pelos bairros periféricos do Arraial do Tijuco e comecei o trecho de “estrada”.


Era estrada né, o que me surpreendeu foi que grande parte do trecho entre Diamantina e Vau está calçado, asfaltado ou prestes a asfaltar. Há menos de dois anos era mixaria de asfalto e o resto de terra, uma estrada sinuosa e estreita que rasgava a Serra do Espinhaço. Sem muitas dificuldades, depois de 26km, percorridos em 40 minutos, passei pelo discreto povoado de Vau, às margens do Rio Jequitinhonha Preto.


Depois de Vau diminui drasticamente os trechos em obras. Logo que deixei o povoado passei pela ponte sobre o Rio Jequitinhonha Preto, divisa entre Diamantina e Serro. Após o rio uma longa subida que termina em São Gonçalo do Rio das Pedras, arraial parecido com Milho Verde, ambos muito procurados pelas cachoeiras do entorno. Parada rápida, uma foto e a leitura da informação do marco que existe em frente à igreja.


De Vau a São Gonçalo são 6,7km de terra, de lá a Milho Verde são mais 8,2km, também de terra. No segundo trecho a estrada alterna aclives e declives mais suaves, sendo um trecho que merece atenção a descida acentuada um pouco antes de Milho Verde. Antes dessa descida, saída rápida da Estrada Real para chegar a um mirante, com vista 360º da região, onde é possível avistar grande parte da Várzea do Lajeado, o Morro do Raio e parte da cidade de Milho Verde. Na chegada ao arraial de Miverde, às 15:52, parada na Capela de Nossa Senhora do Rosário, um dos cartões postais de lá. Depois de tirar uma foto toquei direto para o camping do Ademar, onde já tinha ficado em outras duas oportunidades.

Mirante entre São Gonçalo e Mi Verde


Cada vez que retorno a Milho Verde o preço do camping está um pouquinho mais elevado (rs), desta vez o Ademar me cobrou 25$ pela noite, mais os 6$ do café da manhã no dia seguinte. Montei rapidamente a barraca e já tratei de bater perna até a cachoeira do Lajeado, pra tirar a poeira do corpo. Foram 2km em 26 minutos, o local estava bem movimentado, devido a proximidade com o arraial, mas ainda sim foi tranquilo para tomar um banho de rio. O Sol foi baixando e o tempo fechando pros lados de Serro. Como já batia uma fome, não tardei para voltar ao camping, mas antes dei uma passada no supermercado local.


Durante a noite o vento gelado cortava a serra de um lado para o outro, então foi difícil ficar perambulando na rua.


De Diamantina a Milho Verde foram 41km percorridos em 1h35.


2º Milho Verde x Cabeça de Boi (Itambé do Mato Dentro)


Um pouco antes de viajar, peguei uma conversa da Giulia pela metade e falaram de uma tal Cachoeira da Grota Seca. Nem estava nos meus planos, mas ela apareceu no GPS e decidi dar uma ida até lá. A cachoeira fica nos arredores de São Gonçalo do Rio das Pedras, a pouco mais de 12km de Milho Verde.


Antes de sair dei uma olhada no óleo motor e completei, mas por desatenção acabei não rosqueando muito bem a tampa do óleo. Na metade do caminho entre Milho Verde e São Gonçalo reparei que a moto fazia um barulho estranho, como se o motor tivesse aberto. Quando olho pra baixo vejo a bagunça: calça toda merejada de óleo, motor besuntado de óleo e polvilhado de poeira, a tampa de óleo igual uma chaminé saindo fumaça. Na hora gelei, pensando se tinha escapulido muito óleo e como resolveria a falta da tampinha. Fiz o caminho de volta procurando e nada. Deixei a moto no camping e fui a pé pela estrada e nada de achar a tampa de óleo. O jeito era deixar de procurar e buscar uma solução. O rapaz que fica na entrada do camping do Ademar me indicou um rapaz que mexe com moto no arraial. Fui lá a pé e ele me pediu pra retornar com a moto, que se não tivesse a tampa lá daria um jeito de resolver, isso em plena Sexta-feira da Paixão. Voltei com a moto e por sorte, o rapaz tinha uma tampa igual. Quem diria? Consegui achar uma pecinha da minha moto em Milho Verde, em pleno feriado. O rapaz me cobrou 10$ e paguei sorrindo.


Mesmo com todo o atraso não havia desistido da Grota Seca. Saí após as 10h de MilhoVerde e passei em São Gonçalo 10:30. Não tem indicação da cachoeira assim que se chega ao arraial, mas acredito que se perguntar a algum local terá a informação correta. Após a ponte do Largo do Comércio, entre na segunda à direita e siga direto pela estradinha principal. Mais a frente terá uma bifurcação na estradinha de terra, mas há sinalização no local (se não tiver, basta seguir à direita). Depois de duas porteiras e duas pontes de madeira, sendo que uma estava meio precária, chega-se a um descampado, que é a área de estacionamento. Encostei a moto por lá às 10:44, entrei na trilha cruzei um lajeado e após 4 minutos estava na cachoeira da Grota Seca.


Serra do Monteiro ao centro

Não há infraestrutura alguma no local, somente uma construção de madeira e lona que serve de abrigo para os caseiros. Mesmo inserida em uma propriedade privada, não me cobraram entrada para a cachoeira, então imagino que a mesma seja de graça. Não é permitido acampar no local, nem fazer churrasco.


Como o tempo estava meio nublado, ainda que não fosse tão cedo fui o primeiro a chegar ao local. Fiquei um certo tempo contemplando até tomar coragem de pular na água. A cachoeira, na verdade, é uma corredeira, que deságua em uma espécie de grota ou vala rochosa, formada pelo Ribeirão Capivari. Um pouco acima da grota (ou poço) há uma espécie de bicame, construído em um dos degraus rochosos. Mesmo sem Sol a temperatura da água estava agradável, então valeu a pena o banho.


Fiquei uns minutos secando e tratei de voltar. Fui e voltei sem nenhum visitante ter aparecido por lá. De volta a Miverde, amarrei tudo na moto e fui para a segunda parte da Estrada Real. A princípio a ideia era seguir até Ipoema e acampar na Cachoeira Alta, mas era melhor esperar pra ver o que tinha pela frente.


Saí de Milho Verde às 12:44 e segui pela rodovia asfaltado que dá acesso a Serro. É um trecho bem bonito da estrada, que passa beirando algumas nascentes do Jequitinhonha. Depois de muitas curvas chego a Três Barras e cruzo o rio Jequitinhonha mais uma vez. Mais curvas, aclives e declives acentuados depois chego a Serra, que encontrei meio vazia durante o feriado. Fiquei com preguiça de almoçar por lá, embora tivessem opções, e toquei o barco. Até Alvorada de Minas a Estrada Real está asfaltada, totalizando 41km desde Milho Verde.


Cheguei a Alvorada 13:15 e, como de praxe, parei para tirar uma foto da igreja. Nisso estava o padre e mais um vizinho da igreja falando das abelhas ou marimbondos que formaram uma gigantesca colmeia em uma das paredes de madeira da igreja. Depois de perguntar pro padre se ele andava colhendo os favos de mel da igreja, comecei a conversar com o vizinho sobre o caminho e perguntei se tinha algum restaurante na rota. Quando ele começou a me explicar, ele interrompeu a fala, pensou um pouco e me perguntou: “quer almoçar lem casa?”. Mesmo querendo a gente da cidade sempre recusa essas coisas, ao invés de aceitar de vez. Então fiz um charme, mas não resisti muito e acabei aceitando o convite. O almoço típico de Semana Santa, com muito peixe envolvido. Na saída ainda ganhei umas laranjas e mexericas, made in roça.


Entre Alvorada de Minas e Itapanhoacanga são 17km, com aclives e declives suaves, e muitas curvas. Deixei os campos rupestres do Espinhaço para trás, entrando em uma região de capões de mata atlântica. A Estrada Real segue por um caminho estreito, que desemboca no estradão de terra da MG-010. Chegando ao estradão é preciso tomar o sentido de Serro para, alguns quilômetros depois, entrar à esquerda para Itapanhoacanga.


Chegando a Itapanhoacanga, nenhuma igreja na rota, assim que se chega ao centrinho do distrito é preciso tomar à direita na continuação do Caminho dos Diamantes. Este trecho da Estrada Real, até Santo Antônio do Norte, mais conhecida como Tapera, é um dos mais belos de toda a rota. O primeiro trecho é compreendido pela subida da Serra da Escadinha, que é bem acentuada. Do alto se tem uma bela visão da região, com vistas para a Serra do Monteiro, Itapanhoacanga e Tapera. A parada nos mirantes é imprescindível.


A descida da serra tinha algumas pequenas valas e parte bem inclinadas, o que demanda atenção ao pilotar. Ao final do declive chega-se ao povoado de Tapera, onde tirei uma foto da igreja às 15:00, depois de percorrer 73km. De Santo Antônio do Norte a Córregos a estrada sinuosa e acidentada dá lugar a uma estrada com curvas e relevo suaves, que passa por campos e pastagens da região. A presença de ciclistas neste trecho me chamou a atenção.


No trecho entre Tapera e Córregos deu pra rodar bem, uma média superior a 60km/h, já que fiz os cerca de 17km em 16 minutos. Até Conceição do Mato Dentro a estrada segue na mesma, sem muita variação altimétrica, mas com alguns trechos mais sinuosos. 13km após Córregos reencontrei a MG-010, agora asfaltada até Conceição.

Vista para o Travessão


Breve parada na Igreja do Rosário, para fotos e um ligeiro descanso da posição de pilotar. Saindo de Conceição, o passante tem uma longa e pesada subida pela frente, menos mal que está asfaltada. No final dela é preciso tomar uma saída à esquerda, deixando o asfalto para trás novamente.


Entre Conceição e Morro do Pilar a estrada volta a percorrer trechos de capão de mata, com bastante oferta de sombras. Desde a saída do asfalto é uma longa descida até o fundo do vale do Rio Santo Antônio, cuja ponte cruzei beirando as 16:00. Depois de descer até o fundo do vale, hora de ascender ao topo dos morros e descer mais uma vez, para chegar a Morro do Pilar, que tinha bastante movimento em sua Igreja Matriz.


Como parei para descansar e comer umas mexericas na ponte sobre o Rio Santo Antônio, passei por Morro do Pilar 16:50, com menos de uma hora até o por do Sol. Claro e evidente que não conseguiria chegar a Ipoema de dia, então coloquei o plano B em ação: Cabeça de Boi. Logo ali.


O trecho entre Morro do Pilar e Itambé do Mato Dentro começa meio sem graça, na minha opinião. Sem muitos visuais, exceto em alguns pontos em que temos a companhia do Rio Preto, além de ser um trecho ruim de estradão, com muitos buracos. Pouco a pouco fui avançando e, após cruzar a ponte sobre o Rio Preto, começo a subir. Num trecho que beira uma plantação de eucalipto, quase trombei com uma mula, ou uma vaca, não me lembro, que se mexeu na hora errada. Seria uma péssima forma de terminar a viagem. Conforme a altitude aumenta, mais interessante ficam as paisagens. Os capões de mata dão lugar, novamente, aos campos. No final do aclive, um dos pontos altos (se não for O ponto alto) do trecho, a bela visão das serras na porção leste do Parque Nacional da Serra do Cipó e o inconfundível Travessão, um divisor natural das bacias do Rio São Francisco e Doce.


Chegar num local com paisagem incrível bem na hora do por do Sol? Nem se tivesse combinado… mas assim foi. Depois de contemplar o Sol se escondendo atrás do Espinhaço era hora de tocar forte até Itambé.


Cheguei a pequena e aconchegante Itambé do Mato Dentro às 17:58, com resquícios de luz no céu, mas já noite na terra. Até Cabeça de Boi seriam mais 10km, a estrada de terra até lá possui algumas curvas fechadas, além de aclives e declives acentuados, merecendo atenção em qualquer hora do dia, principalmente durante a noite. No pacato vilarejo fui direto ao camping local, que fica atrás da igreja, quase no fim da rua. O proprietário do local, Laércio, me cobrou 25$. Depois de montar acampamento fui ao Bar do Agostinho, de onde ecoava uma moda de viola daquelas. Depois de uns pasteis e uma cerveja gelada, retornei aos meus aposentos para descansar.


De Milho Verde a Itambé do Mato Dentro foram 170km


3º Cabeça de Boi x Santa Bárbara


Depois de uma noite com céu aberto, o dia amanheceu bem nublado na região de Cabeça de Boi. A ideia era curtir as cachoeiras da região e sair do povoado por volta das 11h, pra dar tempo de cumprir os 180km finais até Ouro Preto. 7:37 estava saindo do povado, pegando a estradinha de terra rumo as cachoeiras do Intancado e Maçãs. A estradinha de terra está em boas condições, mas demanda atenção na travessia do Córrego Cabeça de Boi, bem na saída. Em condições normais o trajeto pode ser feito por completo em veículos de passeio.


São cerca de 4,8km até chegar a um local com algumas propriedades. Na porteira que antecede a chegada a esse local, é cobrado o ingresso dos visitantes. Como passei por lá bem cedo, não havia ninguém pra cobrar. Segui por mais 1.200 metros, onde há duas porteiras na estrada. A da direita leva ao lajeado do Rio Preto do Itambé, um remanso do rio com pequenos poços e interessante para o banho. Como a manhã ainda estava bem nebulosa, deixei o banho lá pra outra oportunidade. Retornei à bifurcação e passei pela porteira da esquerda. Neste ponto, para quem está de carro, há um estacionamento à esquerda, com entrada metros antes da porteira. De moto dá pra seguir mais algumas dezenas de metros, até um descampado.


8:05 cheguei ao início da trilha. Consultei o GPS e ele indicava próximo do ponto de partida. Trata-se da Cachoeira do Chuvisco, segundo o Google Maps. É uma queda d’água com pequena vazão, que forma um pequeno poço bem raso, ideal para crianças ou pessoas com mobilidade reduzida, já que o acesso é bem tranquilo. Retornei à trilha principal e segui margeando o Rio Preto do Itambé pela esquerda, a trilha segue bem batida por cerca de 500 metros, até encontrar o poço da Cachoeira do Intancado.


É uma cachoeira bem aberta, com bastante exposição ao Sol (se tiver Sol, é claro). O poço é relativamente pequeno, mas bem interessante, com vários pontos rasos. O ideal é, principalmente em feriados, chegar cedo para aproveitar o local com tranquilidade.

Intancado


Mesmo com o tempo nublado a água estava bem agradável, então, depois de um banho de rio, juntei as coisas e fui para a Cachoeira das Maçãs, que fica a 1,1km do Intancado pelo caminho mais longo. Há um atalho que sai das proximidades do poço e sobe a vertente do outro lado do rio, evitando assim a ida até o encontro do Rio Preto com o Córrego do Riacho. Como só descobri esse caminho na volta das Maçãs, atravessei o rio mais abaixo, em um trecho raso.


Depois de cruzar o Rio Preto a trilha segue acompanhando o Córrego do Riacho por um curto trecho, logo é preciso cruzá-lo e começar a subir por uma trilha bem batida, com algumas erosões. Na parte alta da trilha há algumas bifurcações, a primeira leva ao atalho para o Entancado, a segunda e a terceira leva à cachoeira dos Macacos, que fica à montante das Maçãs. A caminhada se desenvolve rapidamente e logo chego às Maçãs, ainda vazia. A cachoeira está “escondida” no fundo de um cânion, o poço é relativamente pequeno, mas ótimo para banho. O local é muito interessante, entre as paredes do cânion a largura deve beirar os 5 metros. Por isso a disponibilidade de luz no local não é das maiores, o ideal é chegar cedo, pra pode pegar o Sol iluminando o local.

Maçãs


Depois de mais um banho de cachoeira, era hora de retornar ao camping e dar prosseguimento na Estrada Real. Por volta das 10:30 já estava de volta, rapidamente desmontei acampamento e coloquei as coisas na moto. Já na estrada, o trecho entre Itambé e Senhora do Carmo está asfaltado, a estrada quase não tinha movimento, mas tinha um ótimo visual da porção leste do Espinhaço. 11:21 passei pela pequena Senhora do Carmo, distrito de Itabira. Eram 16,4km de terra até o distrito de Ipoema, a estrada tem movimento de ônibus e está bem mais ou menos em alguns trechos, com muitos buracos e pedras soltas. 11:44 cheguei a Ipoema, onde parei para almoçar. Próximo a praça central existem pelo menos dois restaurantes. Escolhi o que fica quase de frente a praça, tropeiro mais suco bem servido por 18$. A comida nem tinha assentado na barriga e lá fui eu outra vez, mais 14,6km asfaltados e em boas condições até Bom Jesus do Amparo.


O Caminho dos Diamantes segue asfaltado após Bom Jesus, sendo que alguns quilômetros após a cidade deixei a rodovia que faz a ligação com a BR-381 para pegar uma rodovia que faz a ligação com Itabira, que está em condições precárias, ainda que seja asfaltada. São muitos buracos, asfalto irregular, rodovia mal sinalizada e pista estreita. Mesmo sendo asfalto não deu pra acelerar muito neste trecho de 3,4km de extensão.


Após cruzar a rodovia MG-434, inicia-se um trecho de terra por uma estradinha estreita. Quando passei havia muito cascalho e brita em alguns pontos, o que demanda atenção na pilotagem. O Caminho dos Diamantes cruza a BR-381 e parte em direção a Cocais. A estrada de terra permanece estreita, tendo como companhia os pastos da região. A região de Cocais e Barão de Cocais possui algumas plantações de eucalipto, onde o passante deve ter alguma atenção. Primeiro em relação à navegação, já que novas estradas são abertas com frequência e nem sempre existe um marco sinalizando o caminho a seguir. Segundo são as lombadas, que proporcionam alguns saltos durante o trajeto; por último a questão do movimento, já que pode haver o trânsito de máquinas pesadas no local.


Até Cocais a estrada alterna aclives e declives suaves, de lá até Barão há um forte aclive, com alguns trechos bem cascalhados que exigem um pouco de técnica e uma descida acentuada e sinuosa. Cheguei a Barão 14:23, tinha percorrido 85km desde Itambé e tinha aproximadamente mais 100km até Ouro Preto. Tudo se encaminhando para chegar lá no final da tarde e retornar a BH no mesmo dia.


Depois de Barão de Cocais a Estrada Real fica um pouco mais larga e permanece em boas condições seguindo para Santa Bárbara. Em alguns pontos tenho a companhia da Represa de Peti, abastecida pelas águas do rio que tem o mesmo nome da cidade. No local conhecida como ponte nova, a cerca de 2,5km de Santa Bárbara, parei parar tirar algumas fotos e encostei a moto. Minutos depois, quando fui retomar o trajeto, nada da moto ligar. A luz de neutro não dava nem sinal. Será que era a bateria? Empurrei a moto até a sombra e comecei a tirar as carenagens, o bando e o tanque… como tinha sinal de celular, liguei pro Walace, mecânico, na tentativa de conseguir alguma ajuda. Não consegui achar o problema. Nem no tranco a moto funcionava. Um rapaz de Santa Bárbara que passa pelo local parou e tentou ajudar. Nada. E a bateria do meu celular tava indo pro saco… O rapaz ligou pra alguns contatos de Santa Bárbara, mas não tinha ninguém disponível para buscar a moto, o jeito foi ir empurrando o resto do caminho. Por sorte dois camaradas que estavam andando pela estrada resolveram me ajudar, já que tinha algumas subidas pela frente.

DR abriu o bico


Nas subidas a ajuda foi providencial, nas descidas conseguia descansar um pouco. Depois de uma desgastante subida, já no asfalto de Santa Bárbara, recebi a boa notícia de que encontraria um mecânico no final da descida. Só restava saber se ele estaria lá, já que era sábado de Semana Santa… Como era meu final de semana de sorte, ele estava por lá e resolveu ajudar. Depois de algum tempo, descobrimos que o problema era um mal contato em um terminal do chicote, que mandava a energia da bateria para a ignição. Problema resolvido, era hora de continuar. Depois de quase 3 horas parado ou empurrando, o jeito foi dormir em Santa Bárbara para finalizar o Caminho dos Diamantes no dia seguinte.


Fiquei em uma pousada próximo a centro de Santa Bárbara, o local era simples e o preço bom, me foi cobrado 35$ pela noite. Para renovar as energias saí para tomar um açaí e depois foi cama!


De Itambé do Mato Dentro a Santa Bárbara foram 99,6km.


4º Santa Bárbara x Ouro Preto


Na região do Caraça o dia amanheceu nebuloso e com temperatura agradável. Saindo da pousada parei em um bar aberto para tomar o café da manhã. A ideia era encher bem a barriga, já que o almoço seria somente em BH. Depois de dois salgados e um refrigerante, dei início ao último dia de Estrada Real. O trajeto segue por uma das avenidas principais de Santa Bárbara, sentido Catas Altas, até pegar uma saída à direita e começar o trecho de terra.


Após cruzar o asfalto da rodovia MG-129, andei cerca de 1,5km até uma bifurcação. O GPS mandava seguir à direita, mas um marco reposicionado e uma “placa” indicavam à esquerda. Explico: neste trecho o Caminho dos Diamantes, originalmente, passa por dentro de uma propriedade. Pode ser (muito provável que seja) que os proprietários resolveram restringir esse acesso, criando o desvio. Seguindo à esquerda, logo vou me aproximando de uma casa e uma trilha surge à direita. Este é o caminho, entretanto, esta parte da trilha é inacessível para veículos com mais de duas rodas.


Trecho de trilha

Para quem está de carro, o certo é sair de Santa Bárbara pelo asfalto com sentido a Catas Altas, pegando a estrada de terra que leva ao Bicame de Pedras. Não é só a trilha que impede a passagem de carros, após o trecho de trilha há uma porteira trancada com cadeado, somente a “passagem para cavaleiros” está aberta. O trecho de trilha é um single track bem fácil, sem muitos obstáculos, buracos ou desníveis. Qualquer seja a experiência do piloto, ele não deverá ter muitas dificuldades para transpor este trecho.


Com o meu avanço a Serra do Caraça vai ficando cada vez mais próxima e imponente. Na passagem pelo Bicame de Pedras, a parada é obrigatória para ver de perto a engenhosidade humana. Depois da passagem por um pequeno túnel sob uma linha de trem e de um movimento de rotação em torno do meu próprio eixo, foi complicado perceber para onde a Estrada Real seguia.


Depois de acompanhar por algumas dezenas de metros a linha férrea, é preciso tomar uma saída à esquerda, meio discreta, para chegar a Catas Altas. No sopé da Serra do Caraça, a pequena Catas Altas possui uma boa infraestrutura para os turi$ta$. Passei rapidamente por lá, continuando por um caminho bem cascalhado em direção a Morro da Água Quente, um distrito de Catas Altas. Antes de chegar ao povoado, o Caraça surpreende o visitante com um visual espetacular, que se assemelha com algumas paisagens patagônicas: a represa de Morro da Água Quente tem como pano de fundo a imponente Serra do Caraça, ainda que minerada em alguns pontos.


Após o povoado reencontro o asfalto e sigo em direção a uma das últimas paradas do roteiro: Santa Rita Durão. Saindo do asfalto tenho um dos último visuais claros da Serra do Caraça e começo a pilotar por um trecho aparentemente tranquilo, mas que pode surpreender os distraídos, já que há muito cascalho sobre as cangas, diminuindo a aderência ao terreno. Sem sustos cheguei a Santa Rita Durão, como a próxima parada era Bento Rodrigues, fui procurar saber se era possível chegar até lá.


Conversei em um dos mercados da pequena cidade e não tive nenhuma informação realmente útil, então decidi seguir pra ver no que dava. Alguns quilômetros depois encontrei uma guarita e tive a informação de que o caminho estava interditado, por se tratar de uma área de risco. Sem chance, o jeito era dar meia volta e continuar pelo asfalto.

Caraça


De volta a Sta. Rita Durão peguei o asfalto para Mariana. Se Bento Rodrigues não era possível, a ideia era seguir até Camargos e de lá continuar. Próximo a Antônio Pereira, num local conhecido como Vila Samarco, entrei por umas estradinhas de terra com a intenção de chegar a Camargos. Depois de muito rodar, com o GPS marcando 20km para o destino, parei um carro no estradão de terra e perguntei se tinha como chegar até lá. Prontamente o motorista me respondeu que a ponte para Camargos tinha caído com o rompimento da barragem e que não teria como passar. O jeito foi aceitar as condições impostas e retornar à Vila Samarco.


Depois de mais de 1h rodando por estradas de terra sem conseguir encontrar um caminho para Camargos, retornei ao asfalto e por ele segui até Mariana, onde reencontrei a Estrada Real. Em pleno Domingo de Páscoa, imaginei que não seria possível passar em alguns pontos dos centros históricos de Mariana e Ouro Preto, mas até que não tive muitas negativas, apenas um pequeno desvio pelo caminho.


Após o bairro de Passagem de Mariana, enfim Ouro Preto! A cidade estava bem movimentada, como era de se esperar. Depois de 403km pelo Caminho dos Diamantes, descontando os erros e as explorações, cheguei a Praça Tiradentes. A praça estava muito movimentada, com pessoas transitando, tirando fotos, desmontando estruturas, recolhendo sacos de lixo, etc. Diante de tanta bagunça, a foto final ficou mais pela recordação, de ter chegado!


Mais difícil que a navegação por toda a Estrada Real, a saída do centro histórico de Ouro Preto foi especialmente difícil, mas com a ajuda do GPS encontrei a Rodovia dos Inconfidentes. Depois de 1:30 horas de viagem, cheguei pontualmente às 13:00 em casa, já preparado para o almoço de Páscoa.


De Santa Bárbara a Ouro Preto foram 92,2km

Ponto final


DICAS E INFOS:


Com Sol o Caminho dos Diamantes é menos aventura e mais passeio. As estradas normalmente estão em boas condições e não exigem tanta técnica. Considero como ponto mais crítico o trecho entre Cocais e Barão, por conter subidas íngremes com muitas pedras e pequenas valas. Com chuva este trecho da Estrada Real pode ficar bem interessante, exigindo bem mais dos pilotos.


Grande parte dos vilarejos e cidades possuem infraestrutura para o passante. Se a ideia for gastar pouco, evite pernoitar em Catas Altas, dizem que as pousadas de lá são meio caras (aguardando dica de pouso barato por lá). Alguns locais possuem campings estruturados, mas também é possível acampar na beira da estrada em alguns pontos (como o Bicame de Pedra, por exemplo).


Para quem gosta de cachoeiras, existem muitas ao longo do trajeto, nas proximidades da rota. Destaques para a região de Milho Verde, Conceição do Mato Dentro, Morro do Pilar, Senhora do Carmo, Ipoema e Cocais.


De uma forma geral, fui negativamente surpreendido pela condição dos marcos, principalmente nos trechos em obra ou que já fora asfaltados. Alguns estão parcialmente soterrados, outros não possuem a plaquinha de identificação e teve os que ficaram “longe” do caminho com as intervenções. De qualquer forma, é um trajeto de navegação tranquila, com exceção dos trechos que cortam plantações de eucalipto, como colocado no relato.


Começar em Ouro Preto ou Diamantina? Pra quem não está pedalando ou a pé, tanto faz. Dá pra programar um bom roteiro independente do sentido. Considero que é menos cansativo terminar a Estrada Real próximo de casa (Diamantina = 300km, Ouro Preto = 110km).


É possível fazer o trajeto completo em carro de passeio, principalmente se o tempo estiver bom e o motorista tiver alguma experiência no fora de estrada. Claro que alguns trechos terão maior dificuldade, como Itapanhoacanga x Tapera e Cocais x Barão, o resto é tranquilo!

Baixe o tracklog AQUI.

2 comentários:

  1. Muito bacana sua trip Héliio, parabéns!
    Em julho vou fazer o Caminho dos Diamantes e saindo de Ouro Preto, terei 5 dias para chegar em Diamantina. Também vou de moto.
    Quais locais acha imperdíveis nesse caminho?
    Obrigado!

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  2. Valeu Marcelo!
    Como terá tempo, acredito que possa dar uma esticada até Tabuleiro, uma vila pertencente ao município de Conceição do Mato Dentro, para visitar a Cachoeira de Tabuleiro, a 3ª mais alta do Brasil. Cabeça de Boi também é um local bem agradável, vale a pena passar a noite por lá. Por fim, Milho Verde e Diamantina também merecem uma estadia! Se gostar de água, cachoeira é o que não falta nessa rota!

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